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Uma nova visão da loja física: das transações ao ecossistema de valor movido por IA

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| por Eduardo Terra

Na Era da IA, o papel da loja física mudou completamente – e se tornou muito mais complexo e fascinante.

Há alguns anos, discutia-se o “apocalipse do varejo”, com a derrocada das lojas físicas em um mundo cada vez mais digitalizado. Esse debate deu lugar a uma realidade muito mais complexa, desafiadora e fascinante. Não estamos vendo e não veremos o fim das lojas, mas algo mais importante: sua transformação estratégica.

Daqui em diante, as lojas físicas de sucesso serão aquelas que evoluírem, deixando de ser um ponto de venda transacional para se transformarem em elos de um ecossistema hiperconectado. Esse movimento já vem acontecendo no Brasil: estamos à frente da curva global porque nossa base de consumidores se digitalizou de forma acelerada nos últimos anos. E isso tem exigido que o varejo repense não somente o layout e o sortimento das lojas, mas o próprio DNA dos seus modelos de negócios.

 

Inovação movida a dados

Para entender o que virá por aí nas lojas físicas, precisamos olhar para a maturidade digital dos consumidores brasileiros. Dados da Pnad Contínua do IBGE mostram que a internet está presente em 93,6% dos domicílios do país. No nosso mercado, temos 258 milhões de celulares – cerca de 1,22 aparelho por habitante.

Em outras palavras, vivemos em uma “sociedade smartphone”. Em todas as classes sociais e regiões do país, as pessoas não separam mais o online do offline. O brasileiro vive jornadas híbridas e fluidas no seu dia a dia.

Ao contrário do que acontece em mercados como os Estados Unidos, em que em 2025 foram fechados 15 mil pontos de venda (segundo projeções da Coresight Research), no Brasil o momento é de expansão das lojas físicas. Dados do ranking TOP 300, do Instituto Retail Think Tank (IRTT), mostram que em 2024 as 300 maiores varejistas do país tiveram um crescimento de 4,3% no total de lojas.

A grande diferença não está, porém, na abertura ou fechamento de lojas – está no tipo de loja que permanece aberta.

 

As 5 dimensões da nova loja física

Para sobreviver e prosperar, a loja física precisa abandonar a tradicional função de “depósito de produtos” para assumir 5 novas dimensões estratégicas, que expandem suas funções dentro da jornada de consumo.  Criamos este modelo (eu e meu sócio Alberto Serrentino ) na última NRF 2026 para servir der referência em reflexões a respeito do futuro das lojas físicas. As 5 dimensões são as seguintes:

1. Elevação da experiência do cliente

A loja física é o único ponto de contato onde os fatores sensoriais são mais importantes que a racionalidade. Por isso, têm um potencial infinitamente maior de encantamento do consumidor. A elevação da experiência passa por uma curadoria rigorosa e pela oferta de serviços que agreguem valor imediato, transformando a visita em um evento relevante para o estilo de vida de cada cliente.

2. Omnicanalidade otimizada por IA

A integração entre canais deve ser invisível, com alta personalização e baixo atrito. A Inteligência Artificial assume um papel importante, funcionando como o motor que prevê o estoque necessário em cada ponto de venda, a partir do comportamento dos clientes e de características de cada mercado. E essa gestão não se limita ao ambiente físico, mas é levado para o “clique e retire” e para o “ship-from-store”. A loja física se torna o centro nervoso da omnicanalidade que gera lucros.

3. Hub de logística e serviços

A demanda pela omnicanalidade faz com que a loja passe a ser um ativo logístico crítico. Com a pressão por entregas no mesmo dia ou em poucas horas, a capilaridade física das grandes redes brasileiras se torna uma vantagem competitiva contra players puramente digitais. A loja física se transforma em um centro de micro-fulfillment para entregas nas imediações, a um custo imbatível.

4. Hub de conteúdo e mídia (Retail Media)

Esta talvez a maior mudança de paradigma para o varejo. A loja física passa a ser vista como um veículo de mídia de alta capacidade de conversão. O conceito de Retail Media transforma as gôndolas e telas digitais em espaços publicitários valiosos, próximos ao momento de decisão de compra. Com a digitalização desses recursos que sempre estiveram presentes no ponto de venda, as marcas podem apresentar seus produtos e serviços no momento mais propício a gerar conversão. O varejo passa a monetizar a audiência física e agrega uma fonte de receita de alta margem.

5. Loja operacionalmente inteligente e movida por IA

A eficiência operacional atinge um novo patamar com o uso de Inteligência Artificial para otimizar as lojas. Da precificação dinâmica das lojas com base na demanda e no estoque, chegando até meios de pagamento sem atrito (incluindo recursos de biometria), o uso de tecnologia em ampla escala no varejo elimina filas, melhora a experiência de compra, permite a coleta de dados, identifica os consumidores e gera informações para a personalização das jornadas de compra.

Essas 5 dimensões do novo varejo forçam uma mudança importante na forma como o sucesso é medido. Passa a ser necessário incorporar indicadores que vão além do faturamento bruto, do ticket médio e das vendas em mesmas lojas (SSS). O varejo precisa, agora, medir o valor do cliente ao longo do tempo (Customer Lifetime Value – LTV), a contribuição das lojas físicas para as vendas digitais em seu entorno e as receitas advindas de serviços e de Retail Media.

Os caminhos apontam para uma profunda transformação das relações entre consumidores e varejistas. Nessa transformação, as lojas físicas não irão morrer, muito pelo contrário: elas se reinventam como o coração de um ecossistema de negócios.

Quem tratar a loja física somente como um imóvel e medirem seu valor apenas pelas transações feitas no local vai ficar pelo caminho. Já quem encarar a loja como um hub de dados, logística, experiência e mídia, com sustentação por uma cultura de inovação constante, se tornará protagonista dessa nova era do varejo mundial.

A partir de agora, o varejo será definido pela capacidade de unir o atendimento humano à precisão da gestão por meio de Inteligência Artificial. Esse novo varejo é híbrido – e seu sucesso depende de uma cultura de negócios que entenda o novo momento, saiba executá-lo bem e empodere as equipes para terem “atitude de dono” em cada nível da organização.

 

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